A sociedade contemporânea é denominada por Foucault de sociedade de controle. Sua gênese teve como pressuposto a gradativa expansão, nos séculos XVII e XVIII, do poder disciplinar.
Este foi fundamental para viabilizar a governabilidade do Estado ao atuar sobre os indivíduos no que diz respeito à apreensão de regras. Formou-se a partir de uma rede de relações entre diversas instituições (família, trabalho, Estado, religião e moral), a rede microfísica do poder.
Os quatro fatores que o determinam são: tempo, espaço (permitem organização das pessoas em um determinado horário e local), vigilância (coleta dados para otimizar o exercício do poder) e saber (gerado pela vigilância).
O poder disciplinar tem uma positividade, a qual pode ser constatada na construção do indivíduo a partir dos poderes e instituições que se exercem sobre ele. Assim, à massa, outrora homogênea, foi atribuída certa heterogeneidade e passou a ser chamada de população.
O Estado começou a utilizar a vida como elemento comum para dialogar com esta. O governo volta a sua atenção à manutenção e prolongamento da existência humana pela adoção de biopolíticas (instituição da saúde pública, controle de natalidade).
É a combinação entre um poder de disciplina sofisticado, exercido de forma mais velada e atrelada ao desenvolvimento tecnológico, e deste biopoder que caracteriza a sociedade contemporânea. As medidas de vigilância, que teriam como finalidade garantir a segurança contra potenciais inimigos da ordem e da vida, levam a um controle exagerado e conhecimento extenso da esfera privada dos cidadãos.
O Estado, apesar de ser uma instituição central e ter crescido junto com as demais em um primeiro momento, foi reduzido a uma função meramente gerencial, ou seja, deve apenas financiar e fiscalizar. O ato de pensar em políticas públicas está delegado ao Terceiro Setor, um dos muitos braços fortalecidos do Estado.
Porém, o domínio ocorre pela criação nos indivíduos de uma incapacidade de contestar o poder que se afirma acima deles, ação realizada pelo poder disciplinar. Ao moldar os cidadãos com sua positividade, imbui-os de mansidão e de elementos que conseguirão dar continuidade ao sistema, ao capitalismo.
A manutenção da vida pela biopolítica não abrange todos os membros da população. Apenas aqueles docilizados, que se constituem como consumidores e produtores de mercadorias (não contestam e legitimam o modo de produção) tem a possibilidade de usufruir dos benefícios. Os que não se enquadram a esse padrão o governo deixa morrer, tanto física quanto socialmente (exclusão).
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ResponderExcluirConcordo plenamente com o que foi dito no texto acima. O biopoder é uma política que separa quem deve viver (física e socialmente) e quem não. Acho importante adicionar, nesse caso, o papel do racismo a partir da aplicação dessa política, já que ele é o instrumento de decisão; é o racismo que determina quem vive e quem morre. Seu mecanismo de funcionamento será a ideia de que, enquanto o outro, diferente de mim, viver, a minha vida estará em risco. E como ser humanos que somos, sempre agiremos com o intuito de perpetuar nossa própria vida. Por isso que todo Estado Moderno da atualidade passa, ou passou, em algum momento, pelo racismo.
ResponderExcluirAssim, o biopoder, principalmente em períodos de guerra, precisa manter o racismo, alimentá-lo, fazê-lo evoluir, pois, nas palavras de Foucault, “o racismo é ligado ao funcionamento de um Estado que é obrigado a utilizar a raça (...) para exercer seu poder soberano”.
Isso vai além da simples manipulação do indivíduo pela vigilância e pela disciplina. Quanto mais disciplinado um Estado, e quanto mais forte a biopolítica adotada pelo mesmo, mais racista e, por consequencia, mais violento será esse Estado.
Luiza E. Munhos
Tendo a concordar com o que foi dito no texto, mas acho que vocês poderiam ter acrescentado a discussão a respeito do medo da morte e de que forma o desenvolvimento desta visão sobre a morte possibilita um controle mais eficiente do biopoder.
ResponderExcluirAntes considerada um evento do âmbito cotidiano da vida e que era compartilhado por toda a comunidade, a morte passa a ser afastada do cotidiano e passa a ser encarada como um evento a ser evitado por todos. A criação de políticas de saúde pública tenta evitar ao máximo este acontecimento, prolongando a vida das pessoas através do uso de remédios, operações.
"Fazer viver" torna-se a função principal do Estado, controlador do biopoder.
Ligia Zambone Moreira (RA 00068930)