Segundo o autor La Boétie, a servidão voluntária, ao contrario do que muitos acreditam, não ocorre graças à força de um governo ou soberano; os próprios indivíduos dão um caráter legitimo a ela por sentirem a necessidade da atuação de um líder para poder guiá-los: “É o povo que se escraviza que se decapita que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios."
A fim de obter vantagens disso, o Estado faz ameaças ao povo, porém não as cumpre. Mesmo submetida a esse ‘teste’ do Estado, as pessoas continuam se submetendo aos poderes do mesmo e, muitas vezes o soberano abusa do poder e usa-o para controlar essa população que se encontra a seu serviço, o que fica explicitado na frase de Boétie: "Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente”
As pessoas que se submetem e se unem sob um governo só o fazem com o objetivo de alcançar a liberdade. Mas não se dão conta de que, na realidade, elas estão perdendo sua própria liberdade. Em suma, para La Boétie, a liberdade seria justamente não se colocar sob o domínio de uma autoridade. Isto se relaciona diretamente com a proposição de Rousseau em relação à liberdade, na qual esta consiste numa possibilidade de transgressão das leis naturais, mesmo para prejuízo próprio, sendo justamente esse fator que diferencia os homens dos animais. Isto também acontece pela perfectibilidade do ser humano, que faz com que os homens percebam a conveniência de viverem em sociedade para perpetuação da espécie e também a desenvolver meios para seu conforto, não essenciais a sobrevivência. No Estado de Natureza, o homem não sentia a necessidade de agrupar-se, tirava da natureza o que precisava para sua subsistência e era dotado de grande força física. A propriedade foi a fundadora da sociedade civil ao dar nova dinâmica às relações entre as pessoas. Tais relações também se tornaram violentas, e para dar fim à guerra entre proprietários e não-proprietários, entre os que tinham terra e os que na tinha, entre os homogenizadores e homegenizados, funda-se um pacto social. No entanto, este não envolve a constituição de um soberano a parte da população que firma o contrato, mas torna os pactuantes soberanos ao mesmo tempo em que são súditos. A liberdade primeira, baseada na força, é substituída pela liberdade civil, que implica no respeito às leis, que nada mais são do que reflexo da vontade geral. O homem abre mão da sua liberdade de violência, de defender os seus interesses pessoais, em prol do interesse coletivo, acreditando em um soberano que irá escolher o melhor tanto para ele como a coletividade.
Em contrapartida, Hobbes encara a liberdade de forma negativa, dizendo que cada homem tem liberdade ilimitada no Estado de Natureza. Essa liberdade sem limites provoca o choque entre as vontades individuais e gera uma situação de guerra de todos contra todos, numa tensão constante, estado este que é insuportável à existência humana. Assim, os homens se juntam para elaborar um contrato social que pacificará a existência ao transferir parte da liberdade e autonomia para um soberano.
Já Locke concorda com Rousseau ao dizer que no Estado de Natureza o homem tinha liberdade ilimitada, sendo dono de suas próprias ações e independente de qualquer outro ser humano, além de todos serem iguais. A diferença entre esses autores dá-se no fato de que para Locke o Estado de Natureza possui uma lei que o regula, que era a racionalidade humana, a qual era responsável pela manutenção da paz e da igualdade, sem que uma pessoa abusasse de outra de alguma forma. Essa liberdade ligada à natureza relacionava-se a não-submissão dos homens a algum poder. Porém, ao se estabelecer a superioridade de um perante o outro se cria o Estado de Guerra, de conflito intolerável e que se resolve com o contrato social. A liberdade é, portanto, o primeiro direito natural do homem.
Por fim, Rousseau considera o homem como um sujeito que serve por hábito, mas que acredita que por meio da liberdade civil, o homem é capaz de estabelecer suas próprias leis, libertando-o da servidão voluntária. Hobbes, por outro lado, acredita na servidão voluntária como alternativa ao Estado de Guerra, que mesmo com uma liberdade irrestrita, e justamente por isso, pela insegurança causada pela imprevisibilidade da ação do outro, servidão existe para garantir a servidão. Assim, a liberdade apresenta-se ao homem como algo que no passado era intrínseco ao seu ser, mas que ele abriu mão a um governante, a um soberano, por não conseguir viver em um Estado de Guerra, por precisar de um mediador nas interações sociais. O fato que lhe faz permanecer nesse estado de sujeição, mesmo quando a sua vontade não é realizada por seu representante, seu governante, é a servidão voluntária de Boétie, o medo e a insegurança que a liberdade irrestrita pode trazer pelo seu próprio caráter.
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